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Deus nos salva com o Coração, pelo Amor que Se une a nossa miséria, transformando-a, e muito mais, infinitamente mais, nos concedendo as riquezas do seu Coração. Isto é o que na teologia podemos sintetizar em uma única palavra: misericórdia.

Corações ao alto (em latim, sursum corda)! Desta forma nós rezamos na santa missa, precisamente na oração do prefácio que precede a oração eucarística. Estas não são apenas palavras de um convite, mas uma verdadeira exclamação onde o sacerdote junto com o povo eleva o coração para o alto. É uma grande graça, pois é o Espírito Santo quem age continuamente na santa missa que opera isso na vida não somente do presidente da celebração, mas de todos os celebrantes do santo mistério, pois – pela graça do batismo e sacerdócio comum – somos todos celebrantes do mistério de Cristo.

Podemos então elevar o nosso “coração ao alto” porque antes mesmo o próprio Senhor Jesus Cristo viveu outro movimento que chamamos de kenosis. Ele viveu o “coração embaixo”, pois se abaixou até nós, até as profundezas da nossa existência, nos buscou no “fundo do poço” e de lá nos acordou, tirou com seu braço forte, nos colocou nos ombros e quer nos conduzir para o Céu.

Este mistério nos é expresso muito bem em uma antiga homilia que narra à descida divina até as profundezas das nossas mortes. Nesta reflexão o autor coloca nos lábios do Ressuscitado as inflamadas palavras de ordem: “Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma única e indivisível pessoa”.

Deus nos salva com o Coração, pelo Amor que Se une a nossa miséria, transformando-a, e muito mais, infinitamente mais, nos concedendo as riquezas do seu Coração. Isto é o que na teologia podemos sintetizar em uma única palavra: MISERICÓRDIA.

Coração divino se abaixa…

Sendo Deus Perfeitíssimo todo ato que Ele faz é um “doce abaixar-Se por amor”, porque tudo o que a Trindade faz é bom, belo e também humilde. Dentre todas as coisas criadas temos o homem que visivelmente é o ápice da criação divina. Neste notamos um abaixar-Se radical de Deus que imprime no ser humano a sua “Imago Dei”, a Sua imagem e semelhança, e deseja-o para Si. Isso significa que Ele decidiu para sempre estar em relação com o homem e para sempre manifestar a sua misericórdia.

A misericórdia é de fato a causa da criação do homem, como afirma o grande Santo Ambrósio. A misericórdia é o “conteúdo do coração” divino. Podemos compreender a manifestação da misericórdia como ato divino que gera uma verdadeira Ressurreição que nos traz para a vida novamente, mas para uma vida nova, onde o que é velho passa e dá lugar à novidade de Cristo.

Esta graça maravilhosa pode também ser considerada como um “transplante de coração”. Já na antiga Aliança se usava esta imagem para falar de uma profunda renovação na vida do povo santo do Senhor (Cf Ez 11,19). A nova Aliança está fundamentada exatamente no sangue do Cordeiro que é à base de toda a purificação do pecado na nossa vida.

Na imagem de Jesus misericordioso vemos o Coração aberto que jorra sangue e água como aconteceu na Cruz. É deste Coração chagado que se encontra a Fonte divina que lava o mundo inteiro e o homem totalmente. Esta é uma obra maravilhosa que acontece dentro do coração humano e que renova toda a criação.

A “descida divina” nos faz lembrar outra realidade importante que sempre foi muito considerada pelos santos padres da Igreja que é a “condescendência”, pois nos revela a “filantropia divina” que nos mostra um Deus movido unicamente pela sua compaixão e misericórdia, que entregou ao homem o seu Coração, chamando-o à sua Amizade e gratuitamente a Sua vida em abundancia. A vida divina é fonte de cura, libertação, renovação e regeneração.

Une-se ao coração do homem…

Para Santo Agostinho o coração é o lugar por excelência da ação divina, foi Deus quem formou o coração do homem, foi Cristo quem o iluminou e associou ao mistério Pascal e é o Espírito Santo quem o dilata. Consideremos particularmente esta espécie de dilatação operada pelo Espírito Santo. É a ação divina que transforma o coração “distortum” (desviado) que resiste a Deus e ao seu Governo em um coração “rectum” (reto) aberto para a graça, que se deixa purificar e busca amar a Deus e encontra Nele a sua verdadeira recompensa.

O ato de união com o coração humano gera uma grande transformação, pois Deus nos comunica a sua misericórdia de maneira superabundante, que alcança o “centro interior do ser”, na linguagem agostiniana o coração constitui o centro da pessoa e, portanto a descoberta de Deus acontece na parte mais intima do centro. Ao manifestar a sua misericórdia Deus manifesta a profundidade do seu Ser no centro da vida do homem que é seu coração.

Esta união – ação divina – no coração humano representa um manifestar-Se da Trindade. Com grande sabedoria, na sua obra (Cidade de Deus 11,25) afirma ainda nosso amigo Agostinho: “Visto que a nossa natureza, para existir, tem Deus como autor, sem duvidas para gozar da verdade devemos tê-Lo como doutor e, para ser feliz, tê-Lo como o doador da intima doçura (Auctor, doctor, suavitatis intimae largitor)”. Estas três expressões caracterizam a ação da santíssima Trindade no coração humano, Deus mesmo realiza esta grande obra de união conosco.

Deus criou o coração do homem em vista de manifestar a sua infinita misericórdia. Seguindo esta mesma direção, compreendemos que o coração é o principio da nossa identidade, ensina-nos ainda Agostinho: “Com a mão da sua graça e da sua misericórdia Ele formou os corações, criou os nossos corações, os formou um por um, dando a cada um em particular um coração sem destruir a unidade (en. Ps. 32, em. 2, s. 2,21)”. Somente nesta experiência – misericordiosa – o homem encontra a sua identidade, só a misericórdia nos revela a nossa identidade mais profunda, pois nos revela quem somos e ao que somos chamados a ser pela ação divina na nossa vida.

Eleva o coração humano

Afirma-nos ainda o autor da antiga homilia: “Está preparado o trono dos querubins, prontos e postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade”.

A Páscoa de Cristo é a passagem segura para o coração humano ser renovado e elevado para as realidades divinas. Somente estas podem revelar ao homem a grandeza do seu desejo mais profundo e ao mesmo tempo a sua realização.

A força da Ressurreição de Cristo mediante a efusão do Espírito Santo dilata e eleva o coração gerando uma nova existência.  Esta vida traz a dinâmica de viver não mais preso a si mesmo e nem para as coisas que passam, mas viver projetado para além das próprias limitações, preocupações, dores… Este coração traz uma “disposição fundamental” como afirmava papa Bento XVI, pois encontrou o fundamento da vida. Esta disposição coloca-nos numa “corrida de gigantes” como a graça realizou na vida de santa Teresinha. Fundamentados na misericórdia divina o coração se dispõe a abraçar os grandes ideais.

Por obra do Espírito o coração é associado à Páscoa de Cristo que com Seu Coração aberto passa a ser a Fonte à qual o nosso é chamado a receber toda graça e misericórdia. Coração ao alto significa um coração novo, configurado ao Daquele que é “manso e humilde de coração (Cf.  Mt 11, 29)”. Corações ao alto é também essa decisão pelas coisas do Céu, como nos diz Santo Ambrósio: “Também ressuscitamos com Cristo; vivamos, pois, unidos a ele, subamos com ele, a fim de que a serpente não possa encontrar na terra o nosso calcanhar e feri-lo. Fujamos daqui. Podes fugir com o espírito, embora permaneças com o corpo”.

A misericórdia divina eleva nosso coração e toda a nossa vida para Deus e para o próximo, gerando uma vida aberta e orientada para o Céu. Sursum corda é viver uma profunda docilidade Àquele que é rico em misericórdia e constantemente está à porta do nosso coração desejando entrar na nossa vida e revolucionar a nossa história. É também um coração feliz por que a felicidade verdadeira é gozar plenamente do bem que deseja. Somente em Deus nós encontramos o que mais desejamos. Esta é uma verdade imutável, como dizia santo Agostinho: “A felicidade é a alegria que deriva da verdade (Confissões 10, 33)”. Deixemos o Espírito Santo elevar nosso coração ao alto e sejamos felizes!

Padre Rômulo dos Anjos

Missionário da Comunidade Católica Shalom

FONTE: Comunidade Católica Shalom